31 de dezembro de 2007

Ao Mestre com Carinho I

Mestre Solón.

Nessa minha vida dedicada ao teatro, muitos Mestres tenho encontrado e deles recebido ensinamentos que guardo para sempre, não apenas nas páginas dos diários de bordo, mas na memória e no coração. Ensinamentos que marcaram profundamente a minha forma de fazer e entender o teatro. Na minha formação como bonequeiro, tive o privilégio de conviver com alguns Mestres de Mamulengo [1] e brincantes populares como Solón, Saúba, Carlinhos Babau e Paulo de Tarso. Trabalhei durante seis meses no Grupo Mamulengo Só-Riso [2] que na época, investigava os princípios de construção das cenas de várias manifestações populares com foco no Mamulengo.

O Mestre Solón, brincante de Mamulengos, tinha um modo todo peculiar de expor seus conhecimentos.

Um dia em Carpina interior de Pernambuco, eu e o Chico Simões [3] fomos à casa do Mestre Solón encomendar um lote de bonecos. Eu queria adquirir um boneco com feições de adolescente, o mestre me confessou: - Nunca confeccionei nada parecido, mas se eu misturar uns traços de rosto de homem com traços de rosto feminino poderá dar o resultado que você quer. Mais tarde ele me perguntou se eu sabia o que iria fazer com aquele boneco, respondi que tinha uma vaga idéia, foi então que ele me disse: - Quando você tiver um boneco e desejar muito colocar ele no brinquedo, colocar ele na apresentação, uma coisa você não pode deixar de fazer que é, sempre, colocar ele no varal [4] junto com os outros que fazem parte da brincadeira. Coloca . Mesmo que você não use, não pode deixar de colocar. Vai que um dia você acorda, vai botar os bonecos, e está sem dinheiro e precisando muito, então, esse pode ser um bom dia para você colocar o seu boneco pra brincar. Olhe bem pra isso. Você vai colocar seu boneco na empanada, e ele vai dizer quesem dinheiro, a brincadeira dele vai ser sobre a falta do dinheiro e a necessidade que ele tá passando. Mas olhe, quem vai dizer que esta sem dinheiro é o boneco, não é você, entende? É ele quem tá precisando, ninguém vai saber que é você quem ta necessitado. O povo vai rir é do seu boneco, quem nunca viveu uma situação dessas? Não é de você que o povo vai rir. Você vai ter é um bom brinquedo com seu boneco. Pode ficar tão bom, que pode até virar um quadro definitivo no seu brinquedo. Perguntei ao mestre se ele havia feito uma brincadeira desse tipo e ele disse que sim: - Não por falta de dinheiro não, mas por outros motivos, até motivo mais difícil de falar, coisa séria. Muitos dos brinquedos que eu faço são de coisa acontecida comigo, ou com amigos, ou que eu ouço falar. Tem coisa que acontece com o indivíduo que é cruel, mas na boca dos bonecos, o povo faz é rir.

Nessa fala, que eu nunca esqueci, mas com o tempo fui entender, podemos perceber que o Mestre Solón atua como verdadeiro cronista, um artista observador do mundo a sua volta, que sabe que o riso é resultado de situações humanas. É na sua realidade que ele recolhe a matéria prima para suas criações cômicas. A sua insistência em dizer que o boneco tinha que ser o porta voz de um discurso verdadeiro, um discurso do qual o brincante tinha que ter conhecimento de causa. A consciência de que as situações cruéis, dolorosas, constrangedoras do nosso cotidiano, quando revividas em forma de arte, através da imagem de um boneco, deixam de provocar a dor, transformando lágrimas em riso. O Humor é construído a partir das ações humanas. “Não há comicidade fora daquilo que é propriamente humano[5].

Jpsé Regino

Brasília, ano de 2007 d.C.

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[1] Técnica popular de teatro de bonecos desenvolvida em vários estados do Norte e Nordeste brasileiro.

[2] Com sede na cidade de Olinda PE, seus diretores e fundadores Fernando Augusto - autor de Mamulengo: um povo em forma de bonecos, Rio de Janeiro: MEC/FUNARTE, 1979 -.e Nilson Moura foram assistentes de pesquisa de Hermílio Borba Filho, autor de Fisionomia e Espírito do Mamulengo. São Paulo: Cia Editora, 1966.

[3] Veio a se tornar um verdadeiro Mestre na arte dos Mamulengos.

[4] Corda que se amarra por dentro da tolda ou empanada, palco onde se apresenta os bonecos, onde se coloca os bonecos que serão usados na apresentação. Cada mestre tem seu jeito particular de armar o varal e de organizar os bonecos em função da apresentação.

[5] BERGSON, Henri. O RisoEnsaio sobre a significação do Cômico, São Paulo, Editora Martins Fonseca, 2001.